Thursday, February 23, 2006

MÃE

Ser mãe é distender-se em muitos afazeres,
Sem lamentar-se a si, por lágrimas ou dó.
É como ensina um mestre, rico de saberes:
“Também existem muitas mães em uma só”*.

*Outeiral, 2002, p. 69.
“La belleza de la mujer, quando es madre...” (Rilke, 2000, Carta IV, p. 71)

LIBERDADE E MITO

Quem sustenta que liberdade é mais que mito,
Se para tudo estamos sempre constrangidos?
“Voluntários da pátria”? Dito foi e redito:
Para lutar não foram menos que impelidos.

LIBERDADE INTERIOR

A liberdade para o mundo inteiro!
Não quero ver grilhão atar ninguém.
Mas a que servem sonhos tais de bem,
Se eu próprio sou perpétuo prisioneiro?

“Meus pesados grilhões adoro e beijo” (Bocage, 2004, p. 46).

LIBERDADE II

Deve haver, para a vida ser delícia,
Liberdade de passos espontâneos.
Se em cada esquina posta-se a polícia,
A gente faz caminhos subterrâneos.

DISTRAÍDA

Colante e baixa, a calça não constrange a moça:
Barriguinha exibida em mais de palmo e meio,
O sulquinho do sexo em raio xiz se esboça,
Mas aos suspiros o ânimo conduz alheio.

Wednesday, February 22, 2006

SUPEREGO

Mesmo de par em par a porta aberta,
Na escuridão da noite não me afundo.
Fio simbólico os pés me prende e aperta
Contra o maciço rés-do-chão do mundo.

PROSA EMPILHADA

Trago a consciência muito abalada,
Temendo o caos de que se estabeleça,
Sem admitir poesia que o mereça,
Com sua clássica forma abandonada.


Mais do que uma Herodíades* frustrada
A Herodes já pediu minha cabeça,
Por afirmar: poesia alguma é essa
Moderna prosa não-metrificada.


Prosa empilhada em si não faz poesia,
Mesmo se ao natural da manga sai.
Postula fundo e forma em harmonia.


À sensatez dos clássicos, voltai.
É lapidando o verbo que se cria
A arte que fica. O ruim sozinho cai.

*Mc 6, 24.
“La belleza descansa sin embargo en la forma” (Heidegger, 1992, p. 122).
“Procuremos... o que é o bem-feito não o que é freqüentemente feito...” (Sêneca, 1991, II, p. 25).

POETA III

Proclamar a verdade é tudo quanto importa,
Com a ousadia usual da língua do profeta.
Quando canta, anuncia, vitupera e exorta,
Evangeliza o verbo original do poeta.

POETA II

Por que a perene fuga às montanhas,
Trilhando estradas tenazmente duras?
– Não fica ao chão de insípidas campanhas
O poeta – apenas vive nas alturas.

POESIA E FILOSOFIA

Filosofia diz demais – pois tudo fala,
Um universo de proposições alinha.
Poesia diz de menos: o acessório cala.
Que mais quereis do que essa mínima quadrinha?

POESIA II

Há quem defina a bela arte da poesia
Como efetiva “crônica da eternidade”*.
Crônica é sim, porém do tempo – eu diria,
De uma intuição feliz em sua fugacidade.

*Quintana, Correio do povo, 3 dez. 1989, p. 17.

POBREZA I

Quem pouco exige e vive até contente
Com o que da mesa da fartura sobre,
Conforme a lei dos sábios, na alma sente
A beatitude augusta de ser pobre.

“Ó bens do mundo, falsos e enganosos!” (Camões, 1998, p. 31).

PERFECCIONISMO

Da perfeição estreito e íngreme é o caminho.
Vale o tentar – a tentativa já me orgulha.
Veja-se a aurora, mesmo gorda, de fininho,
Faz o incrível: passar pelo olho de uma agulha.

“... a aurora / tinha que passar sem remédio pelo olho de uma agulha” (Garcia Lorca, 2005, p. 142).

PEQUENAS COISAS I

De encontro a tudo o que o vulgo diz,
Pobreza unindo a desventura, creia,
Irmão, eu vivo pobre e sou feliz,
Porque amo os meus pequenos grãos de areia.

“Para los creadores no hay pobreza ni sitio que sea indiferente” (Rilke, 2000, Carta I, p. 43).

PECADOS CAPITAIS

Progresso algum, nem mesmo o mais sutil e ousado,
Em técnica, arte ou ciências naturais,
Ultrapassou, em nosso tempo acelerado,
O avanço firme dos pecados capitais.

PAZ

A paz que perseguida é por todos
Deve ser de uma essência singular.
Nem pessoas nem povos, por engodos
Enredados, a logram empolgar.

"... a guerra... embora não deflagrada já está declarada na belicosidade dos homens"
(Sêneca, 1991, n. XXVI, p. 62).

PARAÍSO PERDIDO

A pior, mais negra e melancólica utopia,
No decurso da história humana, foi aquela,
Dilapidada (como o diabo pretendia),
Que nos rendeu a impossibilidade dela.

OUTRA ODISSÉIA

A tristeza maior mil vezes se repete.
Consiste em ir tecendo e destecendo o véu
Da núpcia que às calendas gregas se remete.
Ser Penélope sem a volta de Odisseu.

“O triste de nossas odisséias / é a obrigação cumprida / sem os braços de Penélope” (Nicanor, 2005, p. 44).

OTIMISMO

Imensa dor por pouco de desgraça
Não é resposta à altura que se admita.
A vida é tudo, menos infinita:
Nela tudo que é seca ou cheia passa.

OURIÇO E RAPOSA

Forma de vida escolhe venturosa
Que for melhor em meio a dezenas:
Com muitos truques, como o da raposa,
Ou o do ouriço, que tem um apenas.

"The fox knows many tricks, the hedgehog only one. One good one".
(Archilocuss, apud Carens, ed., 1993, p. 1).

OCASIÃO E LADRÃO

O que assegura de outros tempos a memória
É que meus olhos coisas novas intuirão.
O vice-versa de ontem hoje faz a história.
Agora é justo assim: ladrão faz a ocasião.

“A ocasião faz o ladrão” – provérbio.

Tuesday, February 21, 2006

ESTIAGEM DA ALMA

Triste é o caminho em que não há pousada,
Nem poço de água – viagem sem farnel.
Isso ainda é pouco, não é quase nada.
A estiagem da alma é muito mais cruel.

“Não sei para que é ter contentamento, / Se mais há de perder quem mais alcança” (Camões, 1998, p. 37).

ESPELHO II

Ouve um conselho, dona atucanada,
Que te esfalfas, correndo atrás de nugas.
Pela vaidade evita ser domada.
Foge do espelho e não verás as rugas.

EPIMETEU

Se sempre as soluções afluem à nossa mente
Depois que tudo plenamente aconteceu,
Gênios não somos – resta-nos sinceramente
Triste destino, idêntico ao de Epimeteu.

Epimeteu significa, em grego, "o que reflete muito tarde" (Mendonça, 1981, p. 61).

POETA I

Contempla o poeta, com sua alma pura,
As coisas – até o mais humilde ser.
E empresta-lhes seu verbo de ternura.
Diz o que as coisas quereriam dizer.

AJURIS, Caderno de Literatura. Porto Alegre, n. 4, p. 7, dez. 1998.
“A palavra (o verbo) que se cumpre no homem é, na natureza, uma palavra obscura e profética (não inteiramente pronunciada). Daí os pré-significados que nela não encontram nenhuma interpretação a não ser pelo esclarecimento humano” (Schelling, 1991, p. 82-83).
“La Poesía es el decir de la desocultación del ente” (Heidegger, 1992, p. 113).

VERSO DE ENCOMENDA

Verso qualquer forjado de encomenda,
Sem o soprar da Musa, é verso torto.
É queijo mofo no balcão da venda,
Feto que se transmuta em natimorto.

“Aguarde con profunda humildad y paciencia la hora en que ha de nacer una nueva claridad” (Rilke, 2000, Carta III, p. 57)

VIDA

Já circula entre o povo como chiste
Certo conceito médico da vida:
Doença mortal que a fármacos resiste,
Como outras, é por sexo transmitida.

"A .. frase me recorda o chiste de que a vida é uma enfermidade terminal de transmissão sexual" (Singer, 1997, p. 118).

VIRTUDE

Além de ser sua própria recompensa,
Vantagens, a virtude as traz, como esta,
Dentre outras de uma relação extensa:
Agrada aos bons, enquanto os maus molesta.

“A vós convém que ninguém se torne virtuoso porque a virtude dos semelhantes soa a vós como censura às vossas culpas” (Sêneca, 1991, n. XIX, p.49). "Quem... atingiu a plenitude humana te falará...: ...A prova da minha honestidade está em que sou desagradável aos desonestos" (Sêneca, 1991, n. XXIV, p.58).

VISIONÁRIO

Por que, profeta, assim de ti presumes
E as coisas todas, queres refazê-las?
Há tempo corre atrás de vagalumes
Muito pernóstico extintor de estrelas.

“Qualquer grande esperança é grande engano” (Camões, 1998, p. 76).

LIBERDADE E VIDA

Indivíduos e povos a liberdade,
Prezam-na ao nível de sua própria vida.
De autonomia um ímpeto pervade
O mundo e a servidão, a invalida.


Não tinha outrora idêntico valor.
Ninguém bradava: “Liberdade ou morte”.
Dizia-se antes: “Seja como for,
A vida prevaleça na má sorte”.


Mudou o conceito: para nós delícia
É todo passo, termo-lo espontâneo,
Sem tocaia, nem mesmo da polícia,
Aliás, caminho abrimos subterrâneo.


Dessa forma acedemos à consciência
De ser livre valer como a existência.

AMOR INCONQUISTADO

Nessa esperança efêmera e ilusória
De arrebatar do céu, inconquistado,
Fogo do amor, restou-me só a glória
De ser um Prometeu atormentado.

AJURIS Cultural. Porto Alegre, n. 1, p. 2, 1996, sob o título PROMETEU.
“Ah, dura lei de Amor, que não consente / Quietação numa alma que é cativa!” (Camões, 1998, p. 110.

FELICIDADE I

Felicidade, fala onde é tua casa!
Quisera em mim sentir teu forte abraço!
Quando te vejo, ali, a pouco espaço,
Foges, cansado, o pé sempre me atrasa.

“La agridulce verdad es que, a medida que parece que nos acercamos a la felicidad, ella se aleja” (Aranguren, 1994, p. 47).
"O espaço de ti não enche o vazio de mim!" (Sampaio, 2003, p. 45).
AJURIS, Caderno de Literatura, Porto Alegre n. 2, p. 4, nov. 1997.

TERRA E CÉU

A terra, para quem tem vista preta,
É só terra. Assim pensa tanta gente.
A terra não é terra simplesmente.
Também é céu – aos olhos do poeta.

AJURIS, Caderno de Literatura. Porto Alegre, n. 4, p. 7, dez. 1998.
La terre et le ciel sont faits pour voisiner e pour s'unir (Sertillanges, 1946, p. 6).

TEMPUS FUGIT III

O sábio o reconhece e não se engana:
O tempo - avaro - nada dá de inhapa.
É a irreparável condição humana:
Mal nascemos, já a vida nos escapa.


*Premiada: 3º lugar no II Concurso de Poesia, Categoria Adulto, promovido pelo Instituto Popular de Arte-Educação, IPDAE, e a Biblioteca Leverdógil de Freitas, de Porto Alegre, Lomba do Pinheiro, em 2005. Jornal do Instituto Popular de Arte-Educação & Biblioteca Leverdógil de Freitas. Porto Alegre.

SEIXOS

Quem fita os seixos ásperos da estrada
Vê-lhes sentido, se olha com amor.
Se estas pedrinhas não valessem nada,
Nem as estrelas não teriam valor.

AJURIS, Caderno de Literatura. Porto Alegre, n. 5, n. 18, jun. 1999.

POESIA I

Ensinai-me, Senhor, o que é poesia!
- Misteriosa e profunda como o mar,
É um sopro, uma nostálgica harmonia,
Que vibra na alma de quem sabe amar.

AJURIS, Caderno de Literatura. Porto Alegre, n. 5, p. 18, jun. 1999.

OUTROS TIRADENTES

Muita gente enaltece a disciplina,
Desde que aos outros se destine o freio.
Quantos há por aí os quais fascina
Ser Tiradentes com pescoço alheio!

Poemas no Ônibus, 13. ed. Porto Alegre: Prefeitura Municipal. Secretaria Municipal da Cultura. Unidade Editorial da Secretaria Municipal da Cultura, 2005, p. 36.

DOM DE SI

Quem faz da vida um dom aos seus irmãos
Também se lucra inteiro para si.
Sempre que procurei egoísmos vãos,
Em vez de me ganhar, eu me perdi.

AJURIS, Caderno de Literatura. Porto Alegre, n. 5, p. 18, jun. 1999.

BRAVATA

Quanto cacique exalta a disciplina,
Desde que aos outros se destine o freio!
De muitos é verdade que os fascina
Ser Tiradentes com pescoço alheio.

Premiada: 3º lugar no I Concurso de Poesia, Categoria Adulto, promovido pelo Instituto Popular de Arte-Educação, IPDAE, e a Biblioteca Leverdógil de Freitas, de Porto Alegre, em 2004. Jornal do Instituto Popular de Arte-Educação & Biblioteca Leverdógil de Freitas. Porto Alegre, n. 3, p. 1 e 3, jul. 2004.

AGRADECIMENTO

Agradeço-vos, Deus, porque fizestes
Minha alma simples, encantada e pura;
E à sedução do pensamento destes
A graça da poesia de mistura.

Revelações brasileiras. Série Especial. Porto Alegre: SHAN
Editores, 2002, p. 16.

DIÁLOGO COM DEUS III

Por que, Senhor, há tantas flores
Por onde quer o olhar estendo,
Se pela estrada a cada passo
Em duro seixo os pés ofendo?


Senhor, é lícita uma troca
Sem dano grave nem mesquinho?
Sacode as pedras para o lado
E espalha as flores no caminho.

Antologia Revelações brasileiras. Série 2001. Porto Alegre: SHANEditores, 2001, p. 78, com o título BARGANHA.

MINHA CIDADE, ITAPIRANGA

Cidade minha, bela Itapiranga,
Altaneira tu espreitas o Uruguai,
Que volteia no vale e encobre a sanga,
Quando, na cheia, ao leito sobressai.


Teu brilho é de uma jóia – não miçanga –
Que ilumina a paisagem ao redor
E envolve o campo. És tu, Itapiranga,
Um centro de cultura irradiador.


Em teu meio nasci, Itapiranga,
Hauri sedento a formação de berço.
Depois parti e arregacei a manga.
Da vida agora mal me resta um terço.


O que sobra contudo é suficiente
Para cantar saudade, Itapiranga,
E congraçar-me com a honesta gente,
Sem disfarce nem arma na capanga.


Muito mais que ao adicto sua paranga,
Deleitas tu, cidade sobranceira,
De respeitado nome, Itapiranga.
Jamais o rio te encobrirá a cumeeira.


O boi sestroso vai lamber a canga.
Este pródigo, assim, no teu enleio
Cativo, sedutora Itapiranga,
Em sonho, ao menos, volta-se ao teu seio.


Há de ser para todos abençoada
Esta terra: como ouro em vária ganga,
Nela jazem – sua última pousada –
Os Pais da valorosa Itapiranga.


Quem fala sério, jura que não manga.
Se um dia – ou quando – houver de não viver,
Do solo teu reserva, Itapiranga,
Um palmo onde eu aguarde o renascer.


Meu canto é pobre, mas não tanto a rima.
Nem, por falha que houver, se o poeta zanga.
Nada importa, senão granjear-te a estima
Do teu ínclito povo, Itapiranga.


Urge o tempo, por isso decidi:
Fora o que é velho, traste ou bugiganga!
Completarei meus sonhos – não aqui –
Na "Terra Prometida" – Itapiranga...

Antologia Cidades Brasileiras. Porto Alegre: SHAN Editores, 2004, p. 14-15.

NÃO-TRIVIALIDADE I

Uma árvore conserva a inclinação
Que em pequena lhe deu a mão humana.
Com gente é outra coisa: a educação,
Os seus ideais, por mais que esteja ufana,


Jamais consegue ao certo garantir.
Nada adianta, nem choro nem lamento.
Longe da planta o fruto vai cair,
Por mil fatores, mais a ação do vento.


O elã vital que a vida inteira invade
Projeta o ser humano, não-rendido,
Além da pura vegetalidade.


As formas rompe a que estiver cingido,
E em absoluta não-trivialidade
Persegue a busca eterna de sentido.

Prêmio Cultura Nacional. Talento Poético Brasileiro. Ano III. Porto Alegre: SHAN
Editores, 2003, p. 41.

LIBERTAS QUAE SERA TAMEN

A liberdade é ideal imorredouro
Que a própria vida excede em seu valor.
Por ela pugnam, mais do que por ouro,
A exemplo do impertérrito Timor,


Povos que não se dobram a tiranos.
Na conquista da própria dignidade,
Com força de Titãs, ou sobre-humanos,
Avançam - e ninguém detê-los há de.


Eis a lídima estrada para a glória.
Heróico povo, de alma destemida,
Não se contém com menos que a vitória.


Sabe a nação, na luta engrandecida:
Resulta escravo, como ensina a História,
Quem mais que a liberdade preza a vida.

“Libertas quae sera tamen” (Virgílio, Bucólicas, Écloga I, 27).
Ordem da Confraria dos Poetas. Timor. Poemas de esperança. 2. ed. Porto Alegre: SHAN Editores, 2002, p. 65.

JUSTIÇA E PAZ

A história mostra os homens como são,
Por natureza, ou como a vida os faz.
Sua rota é de constante colisão,
Adoram guerra - mal toleram paz.


Prós e contras, a paz envolve a todos.
Ela é de uma essência singular:
Nem pessoas nem povos, por engodos
Enredados, a logram empolgar.


Sempre foi fragilíssima plantinha.
Só cresce em meio a humanas excelências.
Na falha da virtude ela definha,


E a vida é subjugada por violências.
Semeai justiça - ou tudo se amesquinha,
Até o valor de nossas existências.

“A virtude não fica como órfão abandonado; deve necessariamente ter vizinhos” (Confúcio, apud Thoreau, 1999, p. 79).
Antologia Poemas de Fé. Porto Alegre: SHAN Editores, 2004, p. 28.
ORDEM DA CONFRARIA DOS POETAS DO BRASIL. Manifesto à paz. Porto Alegre:
SHAN Editores, 2003, p. 8.

DEUSA MINHA

Há tempo te apertei ao coração,
A derradeira vez, estremecida!
Pintou-nos o destino - e eu segui,
Carregando a saudade da partida.


Perdi teu rosto amigo, teu sorriso
Contagiante - e teus envolventes braços.
Inteira te perdi, ficou a ausência.
Tudo se foi, com a perda dos abraços.


Entretanto de novo espero um dia
Ao teu regaço amigo retornar.
É sonho - mas a dor já me alivia.


Ouve esta voz de súplica sentida:
Devolve-te aos meus braços, deusa minha,
Ou deito à sepultura a minha vida!

Antologia Revelações brasileiras. Série 2001. Porto Alegre: SHANEditores, 2001, p. 79.
Prêmio Cultura Nacional. Talento Poético Brasileiro. Ano II. Porto Alegre: SHAN
Editores, 2002, p. 25.
Antologia Cruz do Mérito Literário Brasileiro. Porto Alegre: SHAN Editores, 2004, p. 23.

AMOR DE SALVAÇÃO

Ainda o sol não conseguiu transpor,
Desde a manhã, o manto de neblina
Que encobre o panorama em derredor,
E a tarde vagamente já declina.


Forte é a saudade, intensa é a minha dor,
Sem a tua presença feminina.
A ausência de teu rosto e teu amor
Prolonga a angústia que jamais termina.


Ah! Quanto sofrimento a tarde fria
Injeta na angustiosa soledade!
Se aqui estivesses – quem negá-lo-ia? -


Seríamos uma carne e um coração.
Só enche a taça da felicidade
Um grande amor – “amor de salvação”.

Prêmio Cultura Nacional. Talento Poético Brasileiro. Ano III. Porto Alegre: SHAN
Editores, 2003, p. 41.
Revelações brasileiras. Série Especial. Porto Alegre: SHAN Editores, 2002, p. 17.
. Antologia Cruz do Mérito Literário Brasileiro. Porto Alegre: SHAN Editores, 2004, p. 22.

AMBIGÜIDADE

Verdade é dita em múltiplas maneiras.
Se por conceitos, é filosofia;
Mas por imagens, sérias ou brejeiras,
Quem duvida se trate de poesia?


Entre uma e outra fútil é propor
Linha nítida e clara distinção.
Onde encontrar medida de rigor?
Hélas! Os que a encontraram, onde estão?


Quanto mais me debruço sobre as cousas,
Mais mistério retém-me confundido.
Acusa-me o destino: optar não ousas,


Pois ficarás aquém de toda meta,
- Entre as Musas e Atena dividido,
Nem pensador nem alma de poeta?

"O mais importante é aprender a manejar a ambigüidade" (Mazarin, 1997, p. 117).
Prêmio Cultura Nacional. Talento Poético Brasileiro. Ano III. Porto Alegre: SHAN
Editores, 2003, p. 40.
À eterna Alexandria. Poesia contemporânea brasileira. Porto Alegre: SHAN Editores,
2003, p. 46.

Thursday, February 16, 2006

ÁRVORES ANTIGAS

Quando revejo as árvores antigas
Que viram os meus passos de menino,
À sua copa espaçosa me reclino
E descanso o meu corpo das fadigas.


Se venho sem farnel e sem espigas
Para cozer meu pão de peregrino,
Encontro ao menos, neste meu destino,
O conforto das árvores amigas.


As palavras se evolam como o vento.
A promessa jurada e não mantida
Sem demora transforma-se em tormento.


Quanta angústia em minha alma combalida!
Lealdade humana é às vezes de um momento,
Mas árvores são fiéis por toda a vida.

(AJURIS. Caderno de Literatura. Porto Alegre, n. 3, p. 9, ago. 1998)
“...trate de estar cerca de las cosas: ellas no lo abandonarán” (Rilke, 2000, Carta VI, p. 85).

POPULUS VULT DECIPI V

Eva foi enganada pelo diabo.
Ela enganou, de quem foi feita, Adão.
Dessa maneira é que, ao fim e ao cabo,
Se intrometeu no mundo a enganação.


Bem ou mal, essa prístina atitude
Demonstra o que seria o humano fado:
Mover-se no caminho da virtude
Na tensão enganar - ser enganado.


A outra parte da história, a sei de cor.
A conhecer, a vida inteira fez-mo,
Rica em tramas de decepção e dor:


Procura o povo, a todo pano e a esmo,
Ser enganado. Entanto, se a rigor
Ninguém o engana, engana-se a si mesmo.

AJURIS, Caderno de Literatura, Porto Alegre, ano IX, n. 13, p. 48, dez. 2005.
“... nós todos somos hábeis para nos enganar” (Ovídio, 2001, p. 142).

Thursday, August 25, 2005

ESPELHO I

Vige um recado popular para a donzela,
E sobre ele refletir eu lhe aconselho:
Se natureza ou arte a não fizeram bela,
De nada ao certo valerá quebrar o espelho.

“... ensinando estão despejo e siso / Que se pode por arte e por aviso, /Como por natureza, ser formosa” (Camões, 1998, p. 61).

AMOR IMPOSSÍVEL

Nessa esperança inócua, ilusória,
De arrebatar do céu, inconquistado,
Do amor o fogo, cabe-me uma glória:
Ser Prometeu, porém acorrentado.

“El amor de un ser humano por otro es quizás lo más difícil que nos ha sido encomendado...” (Rilke, 2000, Carta VII, p. 93).

TEMPUS FUGIT V

Nos meus tempos saudosos de guri,
Subia em coqueiros a apanhar coquinhos.
E a ver o céu, que no alto mais sorri,
Ao ameno trinar dos passarinhos.



Depois deixei – não menos que aos pouquinhos.
E alçar-me ao fruto não mais consegui.
Resignei para sempre os meus joguinhos.
Mal e mal a mudança percebi.



Perdi por essas coisas o interesse.
Quis reflexão em vez das aventuras.
Por essa via a gente amadurece.



É o tempo plácido das formas puras.
Se o corpo verga, na alma reverdece
A volúpia do céu e das alturas.

(AJURIS. Caderno de Literatura. Porto Alegre, ano 5, n. 8, p. 41, dez. 2000).
“- Papai, para onde vão os dias que passam?” (Bloch, s.d, p. 268).
Vix orimur, morimur.

Wednesday, August 24, 2005

AMIGO

Se achaste, mesmo nos confins do Oriente,
Alguém capaz de se enquadrar contigo,
Não o deixes, conserva-o firmemente:
Talvez jamais encontres outro amigo.

“Julgo a doce amizade um bem divino” (Bocage, 2004, p. 70).

DIÁLOGO COM DEUS II

O senhor Deus deu-me a linguagem de discípulo...
desperta meus ouvidos para que escute como discípulo... (Is 50, 4).

- Vem, Senhor, solidificar meu ser,
Dar vida nova à minha vida adulta.
As frestas da alma vem fechar - e ver
O frio que reina em minha estepe inculta.

- Frio ou calor que sofras neste exílio,
Resvales mesmo ao pedregoso chão,
Não desalentes: nunca pronto auxílio
Ao céu jamais alguém pediu em vão!

- Como o sol pelo céu azul renasce,
Após uma inclemente tempestade,
Volta e me oscula novamente a face,
Não tardes! Minha solidão invade!

- Eu lembro: quem não corre à fonte eterna
De Água Viva, bem logo o hás de ver
Cavando nas areias sua cisterna,
Que água alguma é capaz de em si reter.

- A ovelha em descaminho Tu procuras.
O filho acolhes, que se arrependeu.
À pecadora suas ações impuras
Olvidas. E o ladrão te rouba o céu...

- Sou assim, é verdade, não o nego.
Os que me temem, os acolho e abraço.
Além de mim não tenhas outro apego.
Só Eu serei teu prêmio. "Eu digo e faço".

“Sabereis então que sou eu o Senhor, que tenho dito, e que tenho executado” (Ez 37, 14).
(Publicado na Antologia poética. Poemas de fé. Porto Alegre: SHAN Editores, 2004, p. 27).

Tuesday, July 19, 2005

LIBERDADE I

Deve haver, para a vida ser delícia,
Liberdade de passos espontâneos.
Em cada esquina posta-se a polícia?
- A gente faz caminhos subterrâneos.